Tuesday, November 1, 2011

A Terra do Meio

Ljubljiana, 19 de Julho de 2008
Brrrrrrrrrrrr........Brrrrrrrrrrr.....Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
Escuto ao longe um ruído que se aproxima a alta velocidade. O meu telemóvel vibra furioso pelo soalho, devia andar para ali às voltas há já algum tempo. Aos poucos começo a reconhecer os contornos do que resta do meu quarto, as paredes azuis, as marcas das fotografias, as prateleiras vazias e ali no meio, o saco de viagem pronto para partir.
Sinto no corpo aquela sensação de ter acabado de me deitar, o entorpecido, dorido, quase não me consigo mexer. Aos poucos as memórias enevoadas da bruma ébria, de uma noite tardia, demorada e exagerada a que não consegui resistir, começam a dissipar-se.
Aproveitei a última noite na cidade para me reunir com alguns amigos, amigos que não sei quando vou voltar a ver, abraçar, sentar-me para mais uma cerveja e uma longa conversa, não tocamos nesse assunto, mas não deixamos de o sentir, entretanto aproveitamos a noite para nos perdermos de riso nas conversas temas e assuntos que são sempre acompanhados com tangentes rasantes à cumplicidade intima das amizade que por infinitas misteriosas razões imprimem em nós viragens e novas formas de estar , viver e sentir.
Amigos que faço pelo mundo, nas passagens, paragens e estadias demoradas, amigos que não sei quando volto a reencontrar, ou talvez os reencontre com frequência em mim, no que sou, no que digo, o que recordo. Muitos como eu, impulsionados por uma inquietação interior, ou por outro qualquer motivo que nos leva ao ponto de encontro, onde mudamos as nossas vidas. Reunidos através do deslocamento geográfico, das latitudes trocadas, uma outra longitude ou tão simplesmente a distância a que chamamos casa.
Estas entre outras coisas fazem com que demoremos uns nos outros, o tempo exacto, nem mais nem menos, o suficiente para imprimir nas nossas vidas aquele momento. Em comum, aquela imensa curiosidade, insatisfação e desassossego, diagnosticada como inquietação geográfica pelos mais ou menos entendidos, que levou alguns Homens desde o princípio dos tempos adoptar uma vida nómada, procurando no percorrer do mundo aquela velha sabedoria que não vem nos livros, o saber real e imaginário da experiência da viagem. A sede do mundo e dos segredos profundos da vida aparentemente errante nos horizontes, impulsiona-os a ir um pouco mais longe, muitas vezes até a partir logo à chegada.
As conversas sucederam-se até de manhã, atrasavam-se em cada novo tema, demoravam-se em cada novo destino, as gargalhadas perlongavam-se na mesma medida em que a cerveja inundava as nossas cabeças, sucediam-se brindes de até já, e a noite ia passando sem que me apercebesse, ou simplesmente sem me importar ou sem mesmo querer saber.
Deixo a cabeça organizar-se na lassidão própria e lenta destas manhãs, as ideias parecem chocar umas nas outras na tentativa de fazerem sentido e o sentido é um só, recordo de repente, partir, voltar a partir, não de regresso a casa, partir de viagem.
Salto da cama sem me preocupar com o mau estado da minha cabeça e do corpo, que parece não reagir aos meus estímulos. Reclama dos excessos da noite que nem teve tempo de acabar.
Sinto no ar um cheiro perfumado que se evapora dos lençóis, onde ainda está desenhada em relevos amrrotados a forma do seu corpo, não sei quando a volto a ver, se a volto a ver, no entanto a sua ausência ganha traços focados, vincos emocionais e físicos marcados no meu corpo, impressões de um afecto apaixonante que fez questão de deixar para perlongar a sua estadia em mim. Sei que vai doer, doí sempre, e demora na dor, mas tinha que chegar ao fim, desde o princípio sabíamos estar condenados a um desencontro combinado, é sempre assim com as emoções proibidas, memórias que arrumamos de forma a poder visitar acompanhadas de uma expressão que o tempo não consegue apagar.
Refaço a rota da noite, para perceber que contornos inventamos nós para escapar aos olhares atentos que nunca desconfiaram dos nossos desencontros combinados, para cumprir uma rota de desejos que não podia acabar de outra forma, que esquema de fuga para escapar à atenção dos mais atentos, reconstruo a noite nos cheiros que pairam no quarto e começo a recordar ao pormenor cada ultimo minuto que não quero esquecer.
Recomponho-me ou pelo menos tento de todos os habituais maus tratos a que por tradição sujeito o corpo e a alma nas noites que antecedem as partidas. Teimosas cerimónias boémias com amigos e com quem mais aparecer. Eternas despedidas, demoradas na insistência fiel que mantêm com a aurora.
Percorro o labirinto desenhado pela roupa amarrotada e abandonada pelo chão do quarto, enquanto começo a sentir a ansiedade de iniciar esta viagem, insisto com o corpo que teima em não querer reagir, arrasto-me pela casa obrigo-me a um banho frio.
Quero despachar-me, aproveitar a viagem até Zabreg, para visitar Novo Mesto com o tempo que ainda resta, perder-me pelo caminho guiado por razões do instinto que raramente vêm assinaladas no mapa e que a lógica nem sempre entende, mas que quase sempre nos surpreendem pela descoberta de paisagens brutais, de uma estrada bordada pelo túnel verde da copa das árvores, bosques, campos estradas, caminhos errantes que desenham a paisagem eslovena.
Estou ansioso por me reunir com amigos e companheiros de outras viagens, que entretanto vão chegar a conta-gotas a Zagreb.

Voltar a partir, viajar, percorrer e atravessar lugares, paisagens, cidades, as gentes, as culturas, nós mesmo que nunca nos repetimos em cada viagem, mesmo que alguns dos destinos sejam já repetidos, mais uma investida nas Balcãs, de repente até mesmo o corpo esgotado e teimoso começa a aceitar o ritmo que lhe imponho. Passa pouco das dez da manhã quando me sento no carro, uma relíquia coreana, que aluguei por uma pechincha. Procuro concentrar-me na hierarquia na funções necessárias para por o carro em movimento, ao mesmo tempo que tento orientar a minha bússola pessoal, marcar os azimutes e saber que rumo seguir para sair de Ljubljana, e já agora na direcção certa.
“Hit The Road Jack!” recordo-me ao volante enquanto conduzo com a cabeça embebida na noite anterior, faço tudo com um acentuado cuidado, tenho a cabeça cheia de poças de álcool, das quais me desvio mantendo o tino entre múltiplas distrações e o tracejado da estrada. Olho pelo retrovisor, e vejo a cidade encolher num vagar proporcional à velocidade, leio no perfil urbano as histórias que vivi, ao fim de uns quilómetros, deixo de ver sinais de Ljiubljana, que cede o seu lugar lá fora à paisagem rural, abstracções e nuances de verde com montanhas ao fundo, “The Sunny Southern Side of the Alps”, passa em primeira mão no retrovisor, nas janelas, no vidro da frente, pelo olhar de quem conduz.
Abandono a auto-estrada e divago por estradas, principais, secundárias e outras piores, algumas mesmo sem classificação, seguindo instruções da minha cabeça que a lógica nem se esforça para entender, tenho tempo à disposição e deixo-me guiar pelo instinto, pela curiosidade, seguindo nortes que não vêm na bússola em direcção a Zagreb, volta e meia o alcatrão teima em desaparecer por baixo do carro, dou comigo no meio de florestas verdes em estradas de terra, túneis de árvores, por onde a luz do sol dificilmente espreita, por vezes pelo napron verde das copas, são projectados feixes de luz na estrada à minha frente, a maior ou menor densidade da vegetação permite-me descobrir a paisagem através dum rendilhado.
Uma viagem que noutras condições levaria duas horas a fazer, leva hoje uma deliciosa eternidade até chegar a Novo Mesto, através da Eslovénia rural, caminhos e descaminhos de quem já se perdeu, inúmeras vezes mas quem mais quer saber se não eu, que nem sequer sinto que esteja perder tempo, estranho em mim, e nem mesmo assim estou atrasado. O Ricardo chega a Zabreb às duas da tarde, e eu prevejo continuar agradavelmente perdido por ali.
Pelo caminho atravesso uma vila de contornos e traços medievais, a estrada principal vai dar a uma ponte da qual desconfio, e hesito atravessar, a estrutura de madeira assim como o aspecto geral não inspira segurança e solidez para a poder atravessar com o carro, fico ali alguns minutos quando do outro lado vejo uma carrinha em sentido contrário atravessar a ponte sem qualquer movimento vacilante, deve ser hábito comum, não tenho saída, o caminho é mesmo aquele e sou obrigado a seguir em frente. Estaciono o carro e passeio-me um pouco, aproveito para tirar umas fotografias, aproveito os últimos momentos a sós, intimamente encontro em mim alguma hesitação quanto a essa questão. Voltar a estar rodeado de gente, sei no entanto e por experiências anteriores no mesmo registo, sempre soubemos compreender e viver com as diferenças uns dos outros, sobretudo em viagem.
Procuro entre a informação do mapa e as placas na estrada, saber onde estou, preciso de encontrar a estrada de Zagreb e no meio do emaranhado confuso de estradas, estradinhas e trilhos por onde tenho andado, confesso que me perdi, e gosto, mas estou também a ficar atrasado para apanhar o Ricardo no Aeroporto de Zagreb, tenho que encontrar a estrada principal e à minha frente apenas estradas secundárias, ao fim de uns vinte minutos finalmente uma placa com uma indicação que tenho no mapa, não estou longe, e finalmente estou de novo no caminho certo. Alguns quilómetros antes da fronteira recebo uma chamada do Ricardo, descanso-o dizendo que já não demoro, vamos ver se há muito trânsito na fronteira.
Fronteira passaporte, os guardas que me observam desconfiados e consigo compreender os motivos para tal desconfiança, eu com passaporte português, ar mediterrânico, o carro, matrícula eslovena, uma relíquia oriental com muito mau aspecto, documentos manhosos, mas ao fim de uns minutos, carimbo, passaporte e boa viagem e ala, cumpridas todas as habituais cerimónias diplomáticas da entrada num outro país, estou de volta à estrada, agora acelerado para recuperar algum tempo.
Fim de semana de Julho, o grande fluxo de trânsito é na direcção dos diversos prazeres da costa do Adriático, precisamente na direcção oposta ao meu rumo, Zagreb está praticamente vazia, permite-me atravessar a cidade rapidamente, ignorando alguns dos limites e contornos legais de condução, evitando aumentar o meu atraso pelo tempo que passei perdido, as ruas desertas e as circulares vazias da cidade deixam-me passar sem perder tempo, da fronteira até ao aeroporto foi um instante quando comparado com meu passeio errante, apesar de tudoo meu atraso é irreprimível.
Na praça das chegadas encontro ao longe identifico uma silhueta familiar, o Ricardo deitado no chão encostado à mochila. Imagino sem grande margem para dúvidas que também ele deve ter cometido alguns excessos na noite anterior.
Doooooutor – Grito eu do carro, vejo a sua cabeça a minha procura, e quando me encontra, esboça uma expressão, um misto de surpresa e alívio projecta-se na sua cara, levanta-se num salto e esbraceja ao meu encontro. É o primeiro dos reencontros. Cumprimos os exageros precipitados das saudações do reencontro, metemos as coisas no carro e dirigimo-nos a um dos lagos de Zagreb, para refrescar do calor que se faz sentir, no caminho metemos a conversa em dia, apercebo-me com surpresa do meu discurso, de novo em português, já não me lembrava da minha vós em português, um português enferrujado e que estranho no início, sinto-me alguém de novo, e estranho. Trocamos histórias, aventuras, loucuras, devaneios, cumplicidades, e tudo mais que há para contar e partilhar, as mesmas cumplicidades de sempre mas com novas paisagens por trás.
Surpreendo-me a mim mesmo, com o ritmo e conteúdos da conversa, com o vocabulário e sons, parece que reaprendo a falar o meu próprio idioma, como uma língua estrangeira que aprendemos a pronunciar com uma enorme facilidade, tudo neste maravilhoso lugar que é a língua portuguesa,
Seguimos para Jarum, um dos lagos da capital, Zagreb é uma cidade interior e as temperaturas no Verão são altas e difíceis de suportar, quente, abafada e sem vento, a cidade torna-se difícil de tolerar, precisávamos de refrescar o corpo e satisfazer a sede com a primeira de muitas cervejas, brindámos ao reencontro, ao regresso à aventura e sobretudo ao facto de estarmos de novo em viagem, dentro de dias estaríamos a conduzir rumo a Sul, contrariando a gravidade dos instrumentos de navegação e orientação, Sul é a direcção dos errantes, de quem gosta de se perder pelo mundo.
Passamos a tarde no lago, com o corpo estendido ao sol em amena cavaqueira, num refrão muito repetido de alegres e barulhentas gargalhadas, sobre tudo e mais alguma coisa, por vezes surpreendemo-nos com magníficas mulheres que vão passando, sobre o nosso olhar atento e espantado frente à indiscutível beleza daquelas mulheres.
O Sol iniciava já o seu percurso descendente, anunciava o fim do dia, a necessidade de regressar ao centro, e o cansaço que se começava a ganhar algum relevo na postura, no ritmo e nas expressões. Traços vivos dos excessos boémios das despedidas noturnas da noite anterior, faziam-se sentir, os corpos precisavam de descanso. Os relvados de Zrinjevac, assim como o baile ali mesmo ali, foram perfeitos para passar pelas brasas, um sono leve e divertido na relva fresca do parque, as sombras seguiam agora incrivelmente oblíquas sobre os últimos raios de sol que ainda traziam consigo algum calor, num ultimo manto de luz.

Sunday, August 26, 2007

Les Vandange

O dia acordou sem qq vergonha, cheio de cores quentes e pujantes, um dia de faca na liga. Os mais adequados tons paro o reinicio da mà vida, o regresso aos dias de vagabundagem.
São as cores deste ceu que fizeram dele um dos mais representados das ultimas epocas de ouro da pintura, hj com imediatismo das artes ja ninguem olha para cima, ja ninguem procura afinar na paleta de cores o azul do ceu de França.
A França onde chegamos ainda de madrugada ainda nao acordou. As cadeiras continuam empilhadas na frente dos cafes ainda fechados com umas luzes timidas, as boulangeries dao as primeiras piscadelas na alvorada deste novo dia que pqrece tardar , manhas de ronha em agosto, uma aragem fresca corre la fora juntamente com os joggers matinais avisando-os dum outono frio que se apressa em chegar.

No meio de toda esta simpatica melancolia, pronto alguem tinha que chegar para a estragar, um tipo escreve no pico do dia, das unicas alturas em aue ninguem o pode chatear e pronto ha sempr, mas sempre alguem que insiste em aparecer.
Mas porque que entre dois animados mas comportados jovens e uns velhos carrancudos, vem smpre chatear os primeiros, se precisam de lugar pessam aos velhos e nao a nos, mas pronto nao ha como negar, o casal de dinossauros fica no lugar e s jovens vao para lugares separados e apertados entre a miscelanea africana do autocarro, onde cheira a fraldas e onde as manchas nos bancos sao realmente de por em causa a higiene do lugar.
A sra a minha frente fala-me numa lingua que desconheço, mas parece advinhar o meu desconforto com os lenços espalhaos na cadeira, no meio de tudo isto vou parar ao lado de uma senhora que parece duvidar de todos os meus movimentso, mesmo quando olho pela jaela que fui obrigado acceitar em troca do lugar da frente, onde tinha o mundo a passar na primeira fila, cheio de tempo e espaço e agora me esta a distante visao periferica do enquadramento da janela, e claro o meu olhar parece incomodara minha companheira de viajem.
O Pedro nao sei se teve melhor sorte, apesar de ter apanhado duas cadeiras, poraue a sua vizinha do autocarro ;, pareceu ter-se incomodado pelo seu bom cheiro o deixou sozinho, mas com seu tamanho nao me parece que esteja melhor do que eu.

Chego q Pqris e repreendo-me automaticamente, mas porque e que eu passo tanto tempo em portugal, mas afinal o que faço eupor la, automaticamente aqueq sensqçao de quem se sente em casa em todo o lado menos na sua propria cidade, Paris da-me esse conforto alem da brisa de memoria que me envqde a memoria com historias de outros tempos e outros cheiros. Contos de Amor? quase perfeito, so faltou o tempo para ser vivido... mqs sqo outras historias...

Agora o comboio e o reencontro em Voigny Beach

Thursday, February 8, 2007

Número de Circo

Senhoras e Senhores, meninos e meninas, admirável público, o rufar dos tambores que acompanham a arquestra, numa pobre melodia que acompanha esta apresentação mortal, sempre pontual às auroras, na influente embriaguez das noites longas acabadas em bares de porto, sitios de má vida que não é a dele, mas que não resiste aos jogos de azar, onde ninguém o incomoda, a estrela, o às do trapézio um homem sem gravidade sentimental, sem coração, num espectacular número em que arrisca a própria vida e por vezes a dos outros também, porque nada vale, viver ou morrer é para ele perfeita mente igual, ele salta das alturas atingindo uma velocidade estonteante, em plena queda livre, ele vira e revira no ar desafiando a gravidade sentimental sem nada a temer, ele arrisca no final do numero um triplo salto imortal, como todos os defeitos do amor, sem acomapanhamento , arriscando percorrer uns 6 meses sem rede, sem compreensão, atingindo uma distância que pode ser medida em Km, o silêncio da plateia ajuda a concentração no seu número, não se sabe o que sentem os que tão sentados, mas ele sente um nervoso, até há hora em que na descida vertiginosa, e a grande velocidade, larga o arame, e se lança no ar abandonado à sorte sabe-se lá de que santos e amigos em que não acredita, de que deuses de qualquer céu onde não tem lugar, mais uma vez largado deixado à sorte das ciências mais ou menos exactas num cálculo imaginário que não sabe se dá certo, ou se chega seguro ao outro lado, onde em certa altura do salto ele nem sabe para onde ir, confia apenas num instinto ora mais ora menos afinado, que o leva pelos percursos da vida. Até onde tiver que ir., num rápido rasganço, compoucos fechares de olhos...

Wednesday, February 7, 2007

Horácio o Palhaço

Na tenda, nem um piu, já nem mesmo a voz roufenha e bolorenta do apresentador se faz ouvir, o silêncio parece perlongar-se pela expectativa, é o tempo suficiente para se iniciarem os burburinhos da impaciência, no silêncio um foco de luz acende-se deixando perceber-se a poeira secular do número anterior, o foco dramático avança em direcção às cortinas vermelhas onde as desdentadas franjas douradas tocam o chão. O drama deste número é o único motivo pelo qual o circo continua na estrada.

Do fundo do silêncio, de onde ainda nem se avista vivalma, ecoa uma primeira nota rouca de acordeão, mais parece suspiro cansado dum fole canceroso, mas da cortina onde está a descansar o foco ainda nada se avista. Mas pressente-se a familiaridade pelo som, advinha-se que lá vem. Horácio! Horácio, é o palhaço de serviço há séculos, tantos que já ninguém recorda, talvez uns 500, não interessa, também pouco interessa o que se escreve, dum desconhecido que nada tem a ver com a história.
Vindo não se sabe de onde, vamos imaginar, um daqueles lugares distantes, não daqueles paradisíacos, dos outros, onde já ninguém quer ir, mas onde continua a haver gente, mas há tempo suficiente para se lembrar, foi à uns 150 anos., o que também não interessa muito, aliás a ninguém, certo?
Horácio, recorda a sua cidade com sendo a da Luz Boa, advinha-se na sua expressão quando fala do passado que a vida lhe sorria, mas ouve algo, algo que o transformou, algo que no seu passado, fala-se numa história de facas, mas ninguém sabe, no fundo ninguém quer saber, só se interessam por isso perante a sua pequena actuação, que também não interessa à história, mas algo que o trouxe até ao Circo, até à arena, ao circo e arena de todos nós, com um sorriso que não cansa de encantar.

Horácio suporta o peso duma família, que já não sabe existir, mas que transporta ainda nos dias de hoje memórias do pátio que em tempos foi das cantigas, e ficava na mouraria, dessa historia da qual já não há memória a não ser a sua, que não é mais que uma vaga ideia. Horácio que em tempos respondeu pelo nome de Luís Manuel e trabalhava na construção, sobreviveu à catástrofe de si mesmo , perseguindo o sorriso dos outros, dos outros que das suas próprias histórias sorriem, lamentamos informar , mas Horácio não faz mais que representar as vossas próprias vidas, olhem-se ao espelho quando riem, mas não interessa...

Do seu acordeão siem notas de alegria, contraiando o sentido real da vida Horácio sorri, sorri a cada dia, a cada ser humano, sentido uma especial vontade de ria com as crianças, num conjunto acelerado demais duma melodia triste , tudo passa tão depressa que não dá sequer para sentir pena, para chorar, choramos depois. Este homem, que se despe defronte de todos no entro da arena, com acordeão ao peito, sobrevive de sorrisos, do mais belo e inocente das pessoas quando sorriem com vontade, o som das crianças, pais e mães, familias inteiras ora felizes ora assustadas,deixam escapar gritinhos que se escapam pela arena, como em tempo na casa do Luís Manuel.
No final dobra-se em vénias a agradecer a vontade de viver, e segue para a sua roullotte, onde é raro ter vontade de se despir, ou de se desmaquiar, para ele só assim faz sentido continuar.Mas de que interessa tudo isso afinal o espectáculo já acabou, e na memória de todos só para o ano Horácio voltara a existir.

Wednesday, January 31, 2007

Rocky 2007

Um grande bom dia... Espero

Uma grande surpresa para os eternos revivalismos dos nossos dias, tão pouco conscientes do presente. Mas pouco interessa irmos por ai, mudemos de assunto. O nosso assunto são os revivalismos da nossa memória comum, da geração de finais de setenta principios de oitenta.
Hoje ao descer a rua logo pela manhã e ainda mal acordado, com aquela disposição de cão, deparei com um cartaz de cinema que anuncia uma velha novidade, o regresso do velho Rocky Balboa, o que virá de lá agora. Mais o mais curioso é que o cartaz mostrava um Rocky desportista na mesma imagem musculada de sempre como se continuasse a correr ao som do mitico Eyes of the Tiger, mas desta vez o cenário por traz parece ser os Champs Elysées, será que o proximo combate vai ser na Europa, numa tentativa de aproximar, o heroi de infância , o bruto da luvas e da boca torta com que gritava Vivianne a sua feia amada, ensaguentado depois de quase socumbir nos combates que acabava sempre por ganhar, do cinema sensivel e possivelmente humano europeu.

Não sei, não me levem a mal, nem mais ainda a bem, levem-me apenas ao cinema para ver este filme.

Monday, January 29, 2007

A defesa do poeta

A defesa do poeta

Natália Correia

Senhores jurados sou um poeta
um multipétalo uivo um defeito
e ando com uma camisa de vento
ao contrário do esqueleto

Sou um vestíbulo do impossível um lápis
de armazenado espanto e por fim
com a paciência dos versos
espero viver dentro de mim

Sou em código o azul de todos
(curtido couro de cicatrizes)
uma avaria cantante
na maquineta dos felizes

Senhores banqueiros sois a cidade
o vosso enfarte serei
não há cidade sem o parque
do sono que vos roubei

Senhores professores que pusestes
a prémio minha rara edição
de raptar-me em criança que salvo
do incêndio da vossa lição

Senhores tiranos que do baralho
de em pó volverdes sois os reis
sou um poeta jogo-me aos dados
ganho as paisagens que não vereis

Senhores heróis até aos dentes
puro exercício de ninguém
minha cobardia é esperar-vos
umas estrofes mais além

Senhores três quatro cinco e Sete
que medo vos pôs por ordem?
que pavor fechou o leque
da vossa diferença enquanto homem?

Senhores juízes que não molhais
a pena na tinta da natureza
não apedrejeis meu pássaro
sem que ele cante minha defesa

Sou uma impudência a mesa posta
de um verso onde o possa escrever
ó subalimentados do sonho!
a poesia é para comer.

Thursday, January 25, 2007

Um Ano Depois

Obrigação

Jorge Palma

Sim, meu amor, está bem meu amor
eu sei que tu tens razão
- dizia-te eu, às vezes, para acabar
com a discussão...

E lá íamos vivendo,
entre dois colpos e um bom colchão,
um futuro á nossa frente
e muito amor para mostrar a toda a gente.

Como era bem vivermos a dois
sem nos darmos mal
(uma canção estrangeira e um filme antigo no telejornal),
e uma noite tu disseste:
já dei p´ra ti meu... vou arrancar!
E lá fiquei eu, sozinho,
a conversar com os meus botões e a tentar
descobrir a causa
que nos levou a tal situação...
Já achei uma ideia que é bem capaz
de ser a solução:
Acho que nós passamos muito tempo
a misturar tripas com coração
e a verdade é bem diferente.
Para haver amor não pode haver o-briga-ção.