Ljubljiana, 19 de Julho de 2008
Brrrrrrrrrrrr........Brrrrrrrrrrr.....Brrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrrr
Escuto ao longe um ruído que se aproxima a alta velocidade. O meu telemóvel vibra furioso pelo soalho, devia andar para ali às voltas há já algum tempo. Aos poucos começo a reconhecer os contornos do que resta do meu quarto, as paredes azuis, as marcas das fotografias, as prateleiras vazias e ali no meio, o saco de viagem pronto para partir.
Sinto no corpo aquela sensação de ter acabado de me deitar, o entorpecido, dorido, quase não me consigo mexer. Aos poucos as memórias enevoadas da bruma ébria, de uma noite tardia, demorada e exagerada a que não consegui resistir, começam a dissipar-se.
Aproveitei a última noite na cidade para me reunir com alguns amigos, amigos que não sei quando vou voltar a ver, abraçar, sentar-me para mais uma cerveja e uma longa conversa, não tocamos nesse assunto, mas não deixamos de o sentir, entretanto aproveitamos a noite para nos perdermos de riso nas conversas temas e assuntos que são sempre acompanhados com tangentes rasantes à cumplicidade intima das amizade que por infinitas misteriosas razões imprimem em nós viragens e novas formas de estar , viver e sentir.
Amigos que faço pelo mundo, nas passagens, paragens e estadias demoradas, amigos que não sei quando volto a reencontrar, ou talvez os reencontre com frequência em mim, no que sou, no que digo, o que recordo. Muitos como eu, impulsionados por uma inquietação interior, ou por outro qualquer motivo que nos leva ao ponto de encontro, onde mudamos as nossas vidas. Reunidos através do deslocamento geográfico, das latitudes trocadas, uma outra longitude ou tão simplesmente a distância a que chamamos casa.
Estas entre outras coisas fazem com que demoremos uns nos outros, o tempo exacto, nem mais nem menos, o suficiente para imprimir nas nossas vidas aquele momento. Em comum, aquela imensa curiosidade, insatisfação e desassossego, diagnosticada como inquietação geográfica pelos mais ou menos entendidos, que levou alguns Homens desde o princípio dos tempos adoptar uma vida nómada, procurando no percorrer do mundo aquela velha sabedoria que não vem nos livros, o saber real e imaginário da experiência da viagem. A sede do mundo e dos segredos profundos da vida aparentemente errante nos horizontes, impulsiona-os a ir um pouco mais longe, muitas vezes até a partir logo à chegada.
As conversas sucederam-se até de manhã, atrasavam-se em cada novo tema, demoravam-se em cada novo destino, as gargalhadas perlongavam-se na mesma medida em que a cerveja inundava as nossas cabeças, sucediam-se brindes de até já, e a noite ia passando sem que me apercebesse, ou simplesmente sem me importar ou sem mesmo querer saber.
Deixo a cabeça organizar-se na lassidão própria e lenta destas manhãs, as ideias parecem chocar umas nas outras na tentativa de fazerem sentido e o sentido é um só, recordo de repente, partir, voltar a partir, não de regresso a casa, partir de viagem.
Salto da cama sem me preocupar com o mau estado da minha cabeça e do corpo, que parece não reagir aos meus estímulos. Reclama dos excessos da noite que nem teve tempo de acabar.
Sinto no ar um cheiro perfumado que se evapora dos lençóis, onde ainda está desenhada em relevos amrrotados a forma do seu corpo, não sei quando a volto a ver, se a volto a ver, no entanto a sua ausência ganha traços focados, vincos emocionais e físicos marcados no meu corpo, impressões de um afecto apaixonante que fez questão de deixar para perlongar a sua estadia em mim. Sei que vai doer, doí sempre, e demora na dor, mas tinha que chegar ao fim, desde o princípio sabíamos estar condenados a um desencontro combinado, é sempre assim com as emoções proibidas, memórias que arrumamos de forma a poder visitar acompanhadas de uma expressão que o tempo não consegue apagar.
Refaço a rota da noite, para perceber que contornos inventamos nós para escapar aos olhares atentos que nunca desconfiaram dos nossos desencontros combinados, para cumprir uma rota de desejos que não podia acabar de outra forma, que esquema de fuga para escapar à atenção dos mais atentos, reconstruo a noite nos cheiros que pairam no quarto e começo a recordar ao pormenor cada ultimo minuto que não quero esquecer.
Recomponho-me ou pelo menos tento de todos os habituais maus tratos a que por tradição sujeito o corpo e a alma nas noites que antecedem as partidas. Teimosas cerimónias boémias com amigos e com quem mais aparecer. Eternas despedidas, demoradas na insistência fiel que mantêm com a aurora.
Percorro o labirinto desenhado pela roupa amarrotada e abandonada pelo chão do quarto, enquanto começo a sentir a ansiedade de iniciar esta viagem, insisto com o corpo que teima em não querer reagir, arrasto-me pela casa obrigo-me a um banho frio.
Quero despachar-me, aproveitar a viagem até Zabreg, para visitar Novo Mesto com o tempo que ainda resta, perder-me pelo caminho guiado por razões do instinto que raramente vêm assinaladas no mapa e que a lógica nem sempre entende, mas que quase sempre nos surpreendem pela descoberta de paisagens brutais, de uma estrada bordada pelo túnel verde da copa das árvores, bosques, campos estradas, caminhos errantes que desenham a paisagem eslovena.
Estou ansioso por me reunir com amigos e companheiros de outras viagens, que entretanto vão chegar a conta-gotas a Zagreb.
Voltar a partir, viajar, percorrer e atravessar lugares, paisagens, cidades, as gentes, as culturas, nós mesmo que nunca nos repetimos em cada viagem, mesmo que alguns dos destinos sejam já repetidos, mais uma investida nas Balcãs, de repente até mesmo o corpo esgotado e teimoso começa a aceitar o ritmo que lhe imponho. Passa pouco das dez da manhã quando me sento no carro, uma relíquia coreana, que aluguei por uma pechincha. Procuro concentrar-me na hierarquia na funções necessárias para por o carro em movimento, ao mesmo tempo que tento orientar a minha bússola pessoal, marcar os azimutes e saber que rumo seguir para sair de Ljubljana, e já agora na direcção certa.
“Hit The Road Jack!” recordo-me ao volante enquanto conduzo com a cabeça embebida na noite anterior, faço tudo com um acentuado cuidado, tenho a cabeça cheia de poças de álcool, das quais me desvio mantendo o tino entre múltiplas distrações e o tracejado da estrada. Olho pelo retrovisor, e vejo a cidade encolher num vagar proporcional à velocidade, leio no perfil urbano as histórias que vivi, ao fim de uns quilómetros, deixo de ver sinais de Ljiubljana, que cede o seu lugar lá fora à paisagem rural, abstracções e nuances de verde com montanhas ao fundo, “The Sunny Southern Side of the Alps”, passa em primeira mão no retrovisor, nas janelas, no vidro da frente, pelo olhar de quem conduz.
Abandono a auto-estrada e divago por estradas, principais, secundárias e outras piores, algumas mesmo sem classificação, seguindo instruções da minha cabeça que a lógica nem se esforça para entender, tenho tempo à disposição e deixo-me guiar pelo instinto, pela curiosidade, seguindo nortes que não vêm na bússola em direcção a Zagreb, volta e meia o alcatrão teima em desaparecer por baixo do carro, dou comigo no meio de florestas verdes em estradas de terra, túneis de árvores, por onde a luz do sol dificilmente espreita, por vezes pelo napron verde das copas, são projectados feixes de luz na estrada à minha frente, a maior ou menor densidade da vegetação permite-me descobrir a paisagem através dum rendilhado.
Uma viagem que noutras condições levaria duas horas a fazer, leva hoje uma deliciosa eternidade até chegar a Novo Mesto, através da Eslovénia rural, caminhos e descaminhos de quem já se perdeu, inúmeras vezes mas quem mais quer saber se não eu, que nem sequer sinto que esteja perder tempo, estranho em mim, e nem mesmo assim estou atrasado. O Ricardo chega a Zabreb às duas da tarde, e eu prevejo continuar agradavelmente perdido por ali.
Pelo caminho atravesso uma vila de contornos e traços medievais, a estrada principal vai dar a uma ponte da qual desconfio, e hesito atravessar, a estrutura de madeira assim como o aspecto geral não inspira segurança e solidez para a poder atravessar com o carro, fico ali alguns minutos quando do outro lado vejo uma carrinha em sentido contrário atravessar a ponte sem qualquer movimento vacilante, deve ser hábito comum, não tenho saída, o caminho é mesmo aquele e sou obrigado a seguir em frente. Estaciono o carro e passeio-me um pouco, aproveito para tirar umas fotografias, aproveito os últimos momentos a sós, intimamente encontro em mim alguma hesitação quanto a essa questão. Voltar a estar rodeado de gente, sei no entanto e por experiências anteriores no mesmo registo, sempre soubemos compreender e viver com as diferenças uns dos outros, sobretudo em viagem.
Procuro entre a informação do mapa e as placas na estrada, saber onde estou, preciso de encontrar a estrada de Zagreb e no meio do emaranhado confuso de estradas, estradinhas e trilhos por onde tenho andado, confesso que me perdi, e gosto, mas estou também a ficar atrasado para apanhar o Ricardo no Aeroporto de Zagreb, tenho que encontrar a estrada principal e à minha frente apenas estradas secundárias, ao fim de uns vinte minutos finalmente uma placa com uma indicação que tenho no mapa, não estou longe, e finalmente estou de novo no caminho certo. Alguns quilómetros antes da fronteira recebo uma chamada do Ricardo, descanso-o dizendo que já não demoro, vamos ver se há muito trânsito na fronteira.
Fronteira passaporte, os guardas que me observam desconfiados e consigo compreender os motivos para tal desconfiança, eu com passaporte português, ar mediterrânico, o carro, matrícula eslovena, uma relíquia oriental com muito mau aspecto, documentos manhosos, mas ao fim de uns minutos, carimbo, passaporte e boa viagem e ala, cumpridas todas as habituais cerimónias diplomáticas da entrada num outro país, estou de volta à estrada, agora acelerado para recuperar algum tempo.
Fim de semana de Julho, o grande fluxo de trânsito é na direcção dos diversos prazeres da costa do Adriático, precisamente na direcção oposta ao meu rumo, Zagreb está praticamente vazia, permite-me atravessar a cidade rapidamente, ignorando alguns dos limites e contornos legais de condução, evitando aumentar o meu atraso pelo tempo que passei perdido, as ruas desertas e as circulares vazias da cidade deixam-me passar sem perder tempo, da fronteira até ao aeroporto foi um instante quando comparado com meu passeio errante, apesar de tudoo meu atraso é irreprimível.
Na praça das chegadas encontro ao longe identifico uma silhueta familiar, o Ricardo deitado no chão encostado à mochila. Imagino sem grande margem para dúvidas que também ele deve ter cometido alguns excessos na noite anterior.
Doooooutor – Grito eu do carro, vejo a sua cabeça a minha procura, e quando me encontra, esboça uma expressão, um misto de surpresa e alívio projecta-se na sua cara, levanta-se num salto e esbraceja ao meu encontro. É o primeiro dos reencontros. Cumprimos os exageros precipitados das saudações do reencontro, metemos as coisas no carro e dirigimo-nos a um dos lagos de Zagreb, para refrescar do calor que se faz sentir, no caminho metemos a conversa em dia, apercebo-me com surpresa do meu discurso, de novo em português, já não me lembrava da minha vós em português, um português enferrujado e que estranho no início, sinto-me alguém de novo, e estranho. Trocamos histórias, aventuras, loucuras, devaneios, cumplicidades, e tudo mais que há para contar e partilhar, as mesmas cumplicidades de sempre mas com novas paisagens por trás.
Surpreendo-me a mim mesmo, com o ritmo e conteúdos da conversa, com o vocabulário e sons, parece que reaprendo a falar o meu próprio idioma, como uma língua estrangeira que aprendemos a pronunciar com uma enorme facilidade, tudo neste maravilhoso lugar que é a língua portuguesa,
Seguimos para Jarum, um dos lagos da capital, Zagreb é uma cidade interior e as temperaturas no Verão são altas e difíceis de suportar, quente, abafada e sem vento, a cidade torna-se difícil de tolerar, precisávamos de refrescar o corpo e satisfazer a sede com a primeira de muitas cervejas, brindámos ao reencontro, ao regresso à aventura e sobretudo ao facto de estarmos de novo em viagem, dentro de dias estaríamos a conduzir rumo a Sul, contrariando a gravidade dos instrumentos de navegação e orientação, Sul é a direcção dos errantes, de quem gosta de se perder pelo mundo.
Passamos a tarde no lago, com o corpo estendido ao sol em amena cavaqueira, num refrão muito repetido de alegres e barulhentas gargalhadas, sobre tudo e mais alguma coisa, por vezes surpreendemo-nos com magníficas mulheres que vão passando, sobre o nosso olhar atento e espantado frente à indiscutível beleza daquelas mulheres.
O Sol iniciava já o seu percurso descendente, anunciava o fim do dia, a necessidade de regressar ao centro, e o cansaço que se começava a ganhar algum relevo na postura, no ritmo e nas expressões. Traços vivos dos excessos boémios das despedidas noturnas da noite anterior, faziam-se sentir, os corpos precisavam de descanso. Os relvados de Zrinjevac, assim como o baile ali mesmo ali, foram perfeitos para passar pelas brasas, um sono leve e divertido na relva fresca do parque, as sombras seguiam agora incrivelmente oblíquas sobre os últimos raios de sol que ainda traziam consigo algum calor, num ultimo manto de luz.
Tuesday, November 1, 2011
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